Tocar na banda ou vê-la passar?

Por que a gravidez de Andréia Sadi foi notícia

É o jornalista tornando-se notícia, tanto quanto estrelas do cinema, da música ou do esporte cujas vidas a mídia costuma cobrir

O ano que terminou não foi somente de hard (& bad) news. Houve, como sempre, espaço para as trivialidades das vidas de celebridades e subcelebridades. Graças ao espaço virtual farto, praticamente infinito, mesmo nos piores momentos da pandemia brotaram amenidades para distrair a audiência. Uma delas, já no fim de 2020, foi a gravidez da jornalista política Andréia Sadi, da Globo.

Que uma atriz da Globo tivesse sua gravidez divulgada e “repercutida”, para usar um jargão dos meios de comunicação, seria perfeitamente normal. Mas…uma repórter?

Pois é. No esforço de atrair e manter a audiência, os veículos de comunicação começaram a utilizar no jornalismo expedientes antes restritos ao entretenimento. Entre eles está a exaltação da imagem de seus profissionais.

Assim como no cinema é o ator famoso que atrai o público para as salas de exibição, no jornalismo eletrônico são os emissores da informação – repórteres, âncoras e, principalmente comentaristas – que emprestam credibilidade e legitimidade aos fatos narrados. Tornam-se, desse modo, tão ou mais importantes que aquilo que reportam ou analisam.

Com isso, passam a ser percebidos pelo público como próximos e familiares, pessoas das quais se conhecem mais do que ideias e opiniões, alcançando também aspectos da vida pessoal.

Foi o que aconteceu com Sadi, cuja vida profissional e pessoal vinha sendo esquadrinhada desde que se destacou como repórter na cobertura da crise política de 2015-16. E que já havia ocorrido na mesma Globo alguns anos antes, quando do nascimento dos filhos de Fátima Bernardes, de sua substituição do Jornal Nacional por Patrícia Poeta e, depois, desta por Renata Vasconcelos. É o jornalista tornando-se notícia, tanto quanto estrelas do cinema, da música ou do esporte cujas vidas a mídia costuma cobrir.

Com as redes sociais, o fenômeno acentuou-se, uma vez que os profissionais não dependem apenas dos veículos para chegar ao público. Se não ferirem regras de seus empregadores, podem perfeitamente expor o que bem entenderem a seu respeito.

Conclusão: por mais que sejam capacitados para desempenhar funções jornalísticas clássicas, os profissionais da área que querem ascender têm de se mostrar versados em outros ofícios, como a autopromoção e o gerenciamento de imagem. Ou seja, aprenderem a dar e a ser notícia.

Tudo aquilo que, em tese, não constitui o cerne da atividade jornalística é, paradoxalmente, o que pode garantir uma carreira vitoriosa na mídia do século 21.

Para aqueles que não comungam desse desejo, e entendem o jornalismo mais como um sacerdócio do que uma fonte de prestígio, poder e dinheiro, vale recorrer à frase de um dos expoentes da profissão no Brasil do século passado, Joel Silveira: “Jornalista não é aquele que toca na banda, é o que vê a banda passar”.

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