A nova batalha

Certo é que Paris tem algo mais com que se preocupar além do coronavírus

Na véspera de mais um confinamento, eis que estamos aqui no olho de um inferno astral como poucas vezes se viu no mundo

Eu sou filho de meus pais, do Recife e da Guerra Fria. Nenhum dessas afiliações foi tão desconcertante quanto a Guerra Fria. Quando a dicotomia Rússia-Estados Unidos acabou, com o esfacelamento da URSS, aqueles que eram crianças nos anos 1970 perderam um referencial simples sobre o pertencimento. Até Hollywood precisou se reinventar porque não dava mais para separar o mundo entre mocinhos e bandidos, o bem e o mal, o certo e o errado. Os maniqueístas foram ao desespero. Não foi bem o meu caso. Primeiro porque eu nunca gostei dessas coisas de preto ou branco. Achava reducionista e infantil. Mas mesmo com um lastro de viagens enorme até a queda do Muro de Berlim, me faltava um novo paradigma de apoio. Bem ou mal, comecei a desenhar o meu,

Foi aí que li O Choque das Civilizações de Samuel Huntington. Ora, dividindo a população do mundo em blocos de acordo com a filiação cultural, dadas as afinidades linguísticas e de crença, o professor conseguia chegar bem mais perto de compreender o mundo multipolar e interconectado que se anunciava. Foi em Huntington que pensei ao despertar hoje e ver as manchetes dando conta da animosidade do mundo do Islã contra a França. Tudo começou com a decapitação do professor Paty. Numa cerimônia solene na Sorbonne, Macron deixou claro que a França não abdica de seus valores fundadores. Referiu-se nomeadamente à caricatura, à satira – ambas profundamente enraizadas na noção de estado laico. Ontem o Charlie Hebdo publicou uma caricatura do presidente turco com o profeta, numa alusão jocosa à sexualidade de ambos.

O Islã em peso não admite que um estado, por laico que se declare, não tenha poder de repressão sobre a imprensa. A conexão do Islã com o estado como uma entidade unívoca é profundamente enraizada na civilização muçulmana. Um dado de cultura, portanto, ganha um realce inaudito e desencadeia uma espécie de nova guerra santa.

Certo é que Paris tem algo mais com que se preocupar além do coronavírus. Ele atende pelo nome de terrorismo islâmico que pode eclodir a qualquer momento em algum ponto do território. Os serviços de segurança estão em alerta. Na véspera de mais um confinamento, eis que estamos aqui no olho de um inferno astral como poucas vezes se viu no mundo. Por muito que tenham querido desmerecer o paradigma civilizacional de Huntington, para mim ele continua mais válido do que nunca.

O boicote comercial à França pelo mundo árabe é só a ponta do iceberg.

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