Maradona, o espírito da nação portenha

Não há discussão mais ridícula do que levá-lo a uma balança com Pelé, Garrincha, Di Stéfano e Messi para que se meça quem foi maior

Discussões bizantinas à parte, nenhum jogador de futebol jamais encarnou tão fielmente o espírito de seu povo e de sua cidade quanto ele

De Paris (França)

O futebol em 2020 saiu de meu radar. Aliás, num ano deplorável como foi este, o que pode ter sobrado de pé? Um pouco de política internacional e muito de concertação científica em torno das pautas sanitárias. E, no entanto, na esteira da morte do apresentador Fernando Vanucci, vinha pensando esta semana em como os jogadores encarnam o espírito de seu tempo, a Zeitgeist da linguagem filosófica, e seus países de origem.

Estando na França há tantos meses, dizia a um amigo que mais do que Platini, achava que Zidane simbolizava bem o país. Elegante, mortal quando os fatores estão alinhados em seu favor, toda componente cerebral podia se desfazer em segundos, como aconteceu naquela final de Copa contra a Itália em que ele foi expulso. O espírito gaulês râleur e o sangue magrebino faziam dele uma caricatura bem-acabada do time nacional.

No caso do Brasil, mais do que Pelé, acho que Garrincha encarnava o espírito individualista e indômito de nossa gente, o dos índios fulniôs de Águas Belas, Pernambuco, de que descendia. A aversão ao treino, a indisciplina, o gosto inebriante pelo improviso, o olhar simplório sobre o mundo, a escolaridade precária, enfim, tudo isso se somava a fazer de Mané a mistura perfeita do divino com a bola nos pés e do profano na vida extracampo.

E assim podíamos falar de Pirlo para a Itália, ou de Gianluigi Buffon. Do Kaiser Beckenbauer cuja altivez era a cara do Mannschaft. De George Best, já referido aqui em AMANHÃ, quando tracei o perfil dos boêmios da bola. O catalanismo do Barcelona é bem representado por Carles Pujol e Raul foi a cara da Fúria. Higuita foi a Colômbia de Escobar na maior defesa de todos os tempos. Mas hoje não é deles que quero falar, senão de Dom Diego.

Sim, Maradona está morto.

Discussões bizantinas à parte, nenhum jogador de futebol jamais encarnou tão fielmente o espírito de seu povo e de sua cidade quanto ele. Maradona foi arte pura, milonga e cambalacho. Pelos seus pés falava a Argentina eternamente órfã de ídolos, a nação irremediavelmente marcada pela tragédia do populismo, a arte feita malandra. Maradona era o próprio carteirista da Boca, o vigarista de Caminito, o virtuose de San Telmo. Maradona era seu povo.

Ninguém desencadeou tanta paixão quanto ele. Ninguém foi tão apupado, traído e apedrejado quanto ele próprio em seu país. Talvez só Borges, mas aí falamos de outra esfera. Politicamente perdido, mercurial até a medula, dado à bravata e à generosidade, conheceu o céu e o inferno. Nápoles levou-o a uma espécie de paraíso terrestre, mas as cravelhas da Máfia o destruíram por dentro. Epítome de uma Evita feita homem, Maradona tinha mesmo de morrer cedo.

Não há discussão mais ridícula do que levá-lo a uma balança com Pelé, Garrincha, Di Stéfano e Messi para que se meça quem foi maior. O que fica para mim são suas jogadas de ousadia suprema, a genialidade de sua visão de jogo e aquela obstinação em se levantar, encarar o zagueiro, relevar a deslealdade e responder com a bola. Estupendo jogador, desafiou até as leis da Física. Paris, eu e o mundo estamos tristes com sua partida.

Se pudesse, o beijaria em agradecimento. Obrigado, Dieguito, até pelas vezes em que você foi nosso algoz. Buenos Aires te deve um tango à altura.

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