O rescaldo da peste

Começo a perder as esperanças de que a humanidade resulte no pós-pandemia muito melhor do que era

Houve um momento que achei que passaríamos por uma espécie de renascimento. Mas Aquárius não chegou nas ruas de Paris

De Paris (França)

Começo a perder as esperanças de que a humanidade resulte no pós-pandemia muito melhor do que era, como cheguei a pensar. Pensando bem, por que haveria? A fase aguda do cerco foi comparativamente curta, e o número de óbitos também foi baixo quando comparado a quadras similares que a humanidade viveu. Mas houve um momento, lá pelo mês de abril, que achei que passaríamos por uma espécie de renascimento. Que o sofrimento diante de uma radical mudança no estilo de viver das pessoas fizesse com que elas atentassem para a solidariedade, o amor ao próximo, a empatia e para um imenso pacote que incluía até mais respeito pela natureza, uma bandeira tornada tangível, e que se presta a tanta vigarice. Mas Aquárius não chegou.

Acho que uma conversa com meus primos, logo no começo de meu exílio sanitário, colocou essa expectativa em perspectiva. Ora, o avô de um deles que morreu com mais de 90 anos, sempre foi um homem caloroso, de grande magnetismo e enorme interesse pelo ser humano, fosse ele uma figura importante ou um desvalido da sorte. Para todos tinha uma palavra de incentivo, de encorajamento, de estímulo e de carinho. Sua vida se estruturou em cima de uma família muito solidária, dessas que sempre encontraram imenso prazer em se reunir para contar e ouvir histórias, e que transformam a crônica do cotidiano em verdadeiro épico. E por que ele era assim? Porque perdera entes queridos na assim chamada Gripe Espanhola. Essa experiência o transformou.

O que vejo hoje nas ruas de Paris não chega propriamente a desmentir essa tese. Mas está longe de corroborá-la. É claro que as pessoas ainda estão um tanto eufóricas em função da retomada de suas vidas. Mas os 20 milhões de desempregados da Europa no rastro da Covid-19 alimentam dois eixos paralelos. O primeiro é o do Estado Keynesiano, com a prorrogação dos benefícios para quem está parado. E o segundo, refreado pelas limitações dos eventos, das viagens e dos serviços em geral, agudiza a luta pela sobrevivência. Os governos pedem às pessoas que elas gastem mais para girar a economia à base do comportamento anticíclico, na tentativa de fomentar um elã virtuoso. Mas as pessoas estão obviamente cautelosas – e cada uma tenta se salvar como pode.

O que virá quando as ajudas acabarem? No horizonte, despontam os primeiros estadistas pós-Covid, com Macron como forte candidato. No âmbito das pessoas, talvez muito pouco mude.

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