Oportunidades e riscos revelados pelo bom censo chinês

A situação demográfica da China não tem volta

A lógica das grandes cidades, regiões metropolitanas e megalópoles, é competitiva e agressiva demais para crianças

Sete milhões de recenseadores levantaram os dados da população da China em 2020, no 7º Censo Nacional do país, realizado durante o mês de novembro, através das 679 mil agências censitárias existentes em vilas, distritos, municípios e províncias. Popularizado através de campanha de propaganda com o slogan “Censo Populacional, Todos Contam” apresentado pelo médico Zhong Nanshan e o jogador de basquete Yao Ming, bastante conhecidos na China, o 7º Censo foi totalmente digitalizado, com código QR e celulares. No final, pesquisa-teste com 32 mil famílias de 141 condados selecionados aleatoriamente em 31 províncias, regiões autônomas e municípios, para checar a confiabilidade dos resultados.

Esse censo não trouxe novidades, mas confirmações das mudanças significativas na população chinesa ocorridas nos últimos 20 anos, e já registradas no censo anterior (2010), que sinalizam dificuldades para o país, e oportunidades também, decorrentes das demandas que surgem, a partir da consolidação da China como país idoso, majoritariamente urbano, com elevado nível de escolaridade, mais homens do que mulheres, e população economicamente ativa menor.

A redução do tamanho da população chinesa, a principal confirmação trazida pelo 7º Censo, ainda não é oficialmente aceita pelo governo chinês – há divergências a respeito, entre políticos e entre especialistas também. Tais divergências, no fundo, têm a ver com a expectativa de que as mudanças recentes (em 2015, 2016, e agora em 2021) na política demográfica surtam efeitos nos próximos anos, tão grandes a ponto de reverter a tendência de diminuição populacional. Explicitada gritantemente pela queda da quantidade de nascimentos (12 milhões em 2020, para 1,4 bilhão de habitantes), a diminuição populacional ficou nítida já em 1998, quando pela primeira vez foi menor do que 20 milhões – desde então só diminuiu, em termos absolutos e relativos.

Para mim, a situação demográfica da China não tem volta, por mais que se ofereçam estímulos materiais a jovens casais para terem três filhos (mínimo necessário ao aumento populacional), porque é irreversível a mudança comportamental ocorrida na China a partir da “política do filho único”: a geração nascida nos anos 2000, nas grandes cidades, só se dispõe a ter um(a), e após os 30 anos de idade. Criar duas crianças nas grandes cidades é algo fora de cogitação para a grande maioria. Três então, nem pensar. E isso não apenas por causa das despesas e do trabalho que dá, mas principalmente pelo fato que cidades grandes não são feitas para crianças pequenas. Apartamentos não são para crianças, muito menos apartamentos pequenos demais.

Esse é o xis da questão: a lógica das grandes cidades, regiões metropolitanas e megalópoles, tão dominante na China (e no Japão e Índia), de grande adensamento e espaços individuais muito reduzidos, é competitiva e agressiva demais para crianças – e pessoas idosas. Por isso, com 18,7% de sua população com 60 anos de idade e mais (264 milhões), e seguindo em marcha batida das áreas rurais para as cidades, onde hoje concentram-se 64% do seu 1,4 bilhão de habitantes, a China está em um caminho sem volta em termos demográficos. A menos que faça outra revolução, dessa vez no sentido de “espraiar” sua população no imenso território, voltando à situação de casas com quintais e famílias grandes (hoje são 2,6 pessoas por família, contra 3,1 em 2010 e mais de seis há 60 anos).

Por isso, a encruzilhada na qual a China se encontra – e muitos outros países da Ásia e da Europa, e o Brasil também – não é apenas populacional, ela é de modelo de desenvolvimento, que gerou a absurda concentração de gente, recursos e oportunidades na região oriental do país (40%), em dezenas de cidades muito populosas, com destaque para Shanghai (25 milhões) e as províncias litorâneas de Guangdong (126 milhões de habitantes) e Shandong (101 milhões).

Os números revelam também oportunidades para quem está ou quer entrar no mercado chinês, hoje com renda per capita de US$18 mil, pela paridade do poder de compra (PPP), e de US$ 10,8 mil pela paridade cambial (a do Brasil é de US$ 6,4 mil). Certamente os 218 milhões de chineses e chinesas com nível universitário possuem renda muito maior do que a média nacional, com as vantagens adicionais de saberem inglês (e alguns uma terceira língua) e quase seis milhões deles terem morado no exterior, graças à política chinesa de intercâmbio.

Mantém-se a desproporção de gênero, com 35 milhões de homens (723,3 milhões, 51,2%) a mais do que mulheres (688,4 milhões, 48,7%), e já há mais pessoas idosas (264 milhões) do que crianças (253 milhões de 0 a 14 anos). Preocupa também a diminuição da quantidade de pessoas que estão “no meio” (15 a 59 anos), responsáveis por manter a economia funcionando: 894 milhões (63,4%). Com a diminuição de nascimentos, haverá cada vez menos entrada nesse grupo, e com a chegada nos 60 anos, cada vez mais saída.

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