Trump beija a lona

Se há um único benefício marginal nessa pandemia, este foi justamente a derrota dele

Vamos ver como ele se comporta até a transmissão do cargo. É ingênuo esperar fairplay

De Paris (França)

Desde segunda-feira não conseguia me concentrar em rigorosamente nada por conta da eleição presidencial americana. Passada essa provação, contudo, e aliviado em ver Trump pelas costas, concluo que se há um único benefício marginal nessa pandemia, este foi justamente a derrota dele – a primeira de um republicano à reeleição em oito décadas.

Isso dito, porém, parece claro que não foram as “boutades” nem o flagrante reducionismo que o derrotaram. Foi a economia. Do jeito que vinham as coisas lá até fevereiro, e refiro-me ao pleno emprego, seria difícil que alguém lhe tirasse a reeleição, fato atestado pelas diferenças mínimas de contagem. Contaram também, é claro, os parentes das dezenas de milhares de mortos de Covid-19 que não podiam chancelar um “negacionista”.

O que concluir?

Que a essência do trumpismo não é vista lá dentro como é aqui fora. E que dezenas de milhões de americanos estavam prontos para consagrar o conceito de “America First”. Narrativas e discursos políticos têm de ser revistos à luz do anti-exemplo. Ouvi muita gente louvando o tal “ele fala como a gente fala, ele diz o que a gente pensa”. Página virada, vamos ver como Trump se comporta até a transmissão do cargo. É ingênuo esperar fairplay. A capacidade dele de fazer estragos é razoável e ele quer manter a militância em brasa para lançar a filha Ivanka dentro de quatro anos.

Quanto ao Brasil, não será necessariamente fácil nossa vida em Washington. Por mais habilidade diplomática de que demos prova, está claro que Brasília tinha um lado. Não creio que o Departamento de Estado venha com um pacote de vendetas pela frente. Mas as pressões tendem a aumentar em várias frentes, especialmente no front ambiental. Governos democratas nunca foram nossos melhores aliados.

Quanto a Biden, ele precisa de descanso intensivo sem tardança. O homem está macerado. Lembra os gerontocratas da velha URSS, apesar dos piques curtos, das firulas para as câmaras e do sorriso de plástico. Biden é um presidente de transição. Chega à Casa Branca como um Papa velho chega ao Vaticano.

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