O fundador e management do Grupo Valore+, Alfredo Moreira Filho, vivenciou na prática como a articulação discreta com os principais importadores permitiu viabilizar a promessa via subsídio de frete aéreo, sem exposição pública, demonstrando os limites da gestão convencional em contextos de pressão política. Cumprir promessas de governo em contextos de restrição orçamentária e logística extrema exige negociação criativa e sigilosa, não apenas boa vontade, pois a gestão de crises políticas frequentemente depende de arranjos práticos que a teoria administrativa convencional não ensina.
A promessa que desafiava a logística amazônica
Durante a campanha eleitoral, uma promessa de governo comprometeu-se a fazer o preço do tomate chegar a dois cruzeiros, apontando a Ceasa como responsável pelos valores elevados. O tomate era referência no custo de alimentação por ser um dos produtos mais consumidos pela população, juntamente com o peixe.
A produção de tomate no Amazonas é escassa, e o produto vinha, quase todo, importado do sul do Brasil. A única rodovia, BR-319, que liga Manaus a Porto Velho estava interditada. Não dava para passar com cargas perecíveis. Os produtos apodreciam nos caminhões atolados nessa rodovia. Por via marítima e fluvial, o tempo gasto de viagem também inviabilizava o transporte de produtos perecíveis, um cenário logístico que Alfredo Moreira Filho conhecia em detalhes por sua atuação em órgãos de abastecimento e fomento agropecuário no estado.
O subsídio que ninguém podia divulgar
O governador eleito assumiu o cargo, trazendo consigo a promessa de fazer o tomate cair para dois cruzeiros. A pressão pelo cumprimento da promessa logo se fez sentir sobre a gestão da produção rural. O que fazer? Subsidiar o transporte do tomate seria a forma mais prática para obter os resultados desejados, ainda que exigisse articulação discreta com os principais importadores do produto.
De forma reservada, Alfredo Moreira Filho convocou os três principais importadores de tomate e negociou um acordo com eles. A Ceasa pagaria o valor do frete de um avião de 10 toneladas de carga, de São Paulo para Manaus. A carga seria exclusivamente disponibilizada, com frete gratuito, para o transporte de tomates. Somente os três importadores de hortifrutigranjeiros seriam beneficiados.
O sucesso que durou apenas uma semana
O acordo não poderia ser divulgado ou noticiado. Seria um escândalo político se a oposição ou a imprensa tomasse conhecimento dessa operação. Foi um sucesso. A carga chegou em Manaus e o quilo do tomate foi vendido nas instalações da Ceasa em Manaus, por dois cruzeiros.
Com o anúncio e a propaganda de tomate a dois cruzeiros na Ceasa, quando, na semana anterior, era vendido a mais de seis cruzeiros, aumentou-se a demanda e o preço rapidamente voltou aos patamares antigos. Mas o governador Henoch Reis pôde dizer que cumpriu com a promessa de fazer o tomate, vendido na Ceasa, cair para dois cruzeiros.
A lição sobre gestão em contextos adversos
A experiência demonstrou que cumprir promessas em contextos de restrição extrema exige criatividade e discrição. A negociação com os importadores permitiu viabilizar a promessa sem expor o governo a críticas por subsídio direto. O arranjo prático resolveu o problema imediato, mesmo que não tenha sido sustentável no longo prazo. Alfredo Moreira Filho compreendeu que soluções emergenciais têm valor político imediato, mas não substituem políticas estruturais de longo prazo.
A lição que permanece é que a gestão de crises políticas frequentemente depende de arranjos que a teoria administrativa convencional não ensina. A capacidade de negociar de forma criativa e sigilosa, entendendo os limites e as possibilidades de cada contexto, é o que separa gestores que resolvem problemas daqueles que apenas administram crises. Em contextos amazônicos, onde infraestrutura básica é precária e prazos são exíguos, a improvisação controlada torna-se competência essencial para qualquer gestor público ou privado que precise entregar resultados sob pressão.
