Lições da pequena Rovolon, a cidade italiana que se digitalizou na pandemia

No Smart City Session, o brasileiro Renato de Castro conta como a população rompeu o isolamento na pandemia e iniciou um processo de retomada econômica local

Castro enxerga pelo menos três tendências que estão sendo impulsionadas nas cidades: a valorização do local, o conceito de “cidades-estado” e a high tech aplicada aos serviços públicos

Expert em cidades inteligentes, o brasileiro Renato de Castro é um dos cinco mil habitantes da pequena cidade de Rovolon, na Itália, epicentro da chegada do novo coronavírus na Europa. A experiência como cidadão e como consultor que ele viveu durante a pandemia – e que resultou na digitalização e na integração de uma população essencialmente analógica – foi apresentada de forma vibrante na palestra que fez no Smart City Session, evento digital realizado pelo iCities com chancela da Fira Barcelona, nesta terça e quarta-feiras (8 e 9).

Apoiado pela própria família – dois filhos pequenos e a mulher, que é professora de inglês – o especialista colocou em prática três projetos para auxiliar a população a enfrentar as dificuldades do “novo normal”, romper o isolamento e se manter abastecida, apesar do distanciamento social. Os moradores de Rovolon não costumavam usar as redes sociais nem tinham intimidade com smartphones para comunicação digital.

“O primeiro deles foi lançar vídeos ensinando receitas práticas como a de pão caseiro. A segunda fase foi a alfabetização digital da população, já que boa parte dos cidadãos ainda fazia suas atividades de forma analógica. Lançamos tutoriais com passo a passo de uso no Facebook, feitos por um youtuber italiano que vive em Londres e também estava em lockdown. O alcance acabou sendo geograficamente maior do que esperávamos, o que revela o caráter mundial de algumas iniciativas locais”, conta Castro.

Essas ações resultaram em um projeto de retomada econômica aplicado às comunas da região de Rovolon, e que foi chamado de “Quilômetro Zero”. “Para fomentar o marketplace local, reunimos mais de dez segmentos com dezenas de promoções, trazendo novidades diárias com bônus e descontos para os consumidores. Isso forçou os empresários a migrarem do analógico para o digital, e o resultado foi impressionante: um dos restaurantes passou de 15 para 79 pedidos em um dia, sendo a maioria por telefone, após o cliente ter visto a promoção no Facebook. Mesmo quando métodos tradicionais ainda coexistem, o digital facilita os processos do dia a dia.”

Tendências para as cidades
Autor do livro A Cidade StartUp, CEO da SmartUp, empresa de consultoria de Barcelona especializada em transformação digital para cidades, Castro é membro do conselho de administração da Leading Cities de Boston e embaixador internacional do Centro de Operações do Rio de Janeiro (COR). Além disso, ele acumula mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa, e visitou mais de 30 países dando palestras e assessorando governos em projetos de desenvolvimento urbano.

Renato de Castro enxerga pelo menos três tendências que estão sendo impulsionadas nas cidades: a valorização do local, o conceito de “cidades-estado” e a high tech aplicada aos serviços públicos. “Seja com novos aplicativos e plataformas desenvolvidos – e aplicados – no dia a dia da população, para definir as estratégias do transporte coletivo, horários de pico e frota, ou mesmo para otimizar serviços como a coleta de lixo, asfaltamento, definição de novas vias da malha cicloviária, denúncias e sugestões, é vasto o rol de possibilidades que podem ser aplicadas pelas prefeituras.”

Em relação ao localismo, o mindset de globalização vai continuar, mas com o foco muito grande nas políticas locais. “As ‘cidades compactas’ ou ‘cidades de 15 minutos’, do pesquisador Carlos Moreno, da Universidade Paris 1 Panthéon Sorbonne, são aquelas que oferecem todos os serviços necessários para o dia a dia do cidadão a uma distância de 15 minutos a pé ou de bicicleta. A ideia é aplicar um planejamento policêntrico ao invés de um único centro da cidade, com mercados, restaurantes, parques, hospitais, escolas, espaços de trabalho e lazer.”

Sobre as “cidades-estado”, Castro enfatiza que o conceito se relaciona ao aumento da influência e protagonismo das cidades do mundo, com a diferença de que de agora em diante as cidades pequenas também terão mais voz. “Em 2016, logo após a votação do Brexit, no Reino Unido, Londres saiu com dois abaixo-assinados para se posicionar como contrária ao referendo, desejando continuar (ainda que sozinha) parte da Europa. Nesse sentido, muitas das políticas públicas só fazem sentido se pensadas localmente, bem como as estratégias para o desenvolvimento sustentável das cidades.”

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