O homem que só mexe as pupilas constrói um legado sobre mobilidade

Limitado pela esclerose lateral amiotrófica, Ricky Ribeiro abraça a causa das cidades inteligentes e fala de sua jornada no Smart City Session 2020

Ricky Ribeiro aos 28 anos de idade, em 2008, antes do diagnóstico de ELA que lhe tirou todos os movimentos do corpo, levando-o a comunicar-se hoje por um leitor de pupilas

“Não é por que estou aprisionado em um corpo que minha alma está aprisionada. Sou movido pela mente.” Assim, o especialista em mobilidade urbana Ricky Ribeiro definiu sua condição pessoal marcada pelas sequelas da esclerose lateral amiotrófica, a ELA, doença que 12 anos depois do diagnóstico, aos 28 anos de idade, lhe tirou todos os movimentos. Menos o movimento da vida, que ele exerce intensamente, comunicando-se por meio de um leitor ótico e falando pela voz de um computador. Mestre em administração, fundador da OSCIP Associação Abaporu e do portal Mobilize Brasil, Ricky abriu a série de painéis de debates do Smart City Session 2020, nesta terça-feira, contando como transformou seu drama pessoal numa jornada pela causa da mobilidade.

Além de abastecer com estudos, estatísticas e notícias o portal Mobilize, o mais importante do país nessa temática, Ricky Ribeiro é membro da equipe de Sustentabilidade Corporativa da Ernst & Young (EY). “A acessibilidade e a mobilidade urbana sustentável garantem à população o acesso à cidade e às oportunidades de emprego, estudos, lazer e serviços públicos. Portanto, são vitais para um bom funcionamento de diversas outras áreas de uma cidade que pretende ser inteligente”, disse ele aos participantes do evento promovido pela empresa brasileira iCities, com chancela da Fira Barcelona, e realizado nesses dias 8 e 9 de forma cem por cento on-line.

Seu trabalho está intrinsecamente ligado a dois projetos pessoais: desafiar as limitações de uma doença tão cruel e produzir um legado para a sociedade. “Quando recebi o diagnóstico de que teria de dois a cinco anos de vida, percebi que poderia esperar a morte chegar ou agarrar a vida. Em menos de um ano eu era um jovem no corpo de um velho. Mas após os primeiros cinco anos, descobri que a doença não era o decreto do fim, mas uma mudança de rumo. Lembrei do meu mestrado em sustentabilidade, voltei a estudar o assunto e criei o portal Mobilize, cujo nome tem a ver com mobilidade e com mobilização. O portal não nasceu, ele explodiu”, contou Ricky, que também escreveu um guia de mobilidade corporativa para a EY.

Autor do livro “Movido pela mente”, Ricky elegeu a música Roda Viva, de Chico Buarque, como o tema de sua história. Os versos “tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá” contam muito de seus sentimentos de tristeza, quando tudo começou, e de esperança, ao desafiar a morte. “O tempo me ensinou que existe vida após um diagnóstico fatídico se a pessoa tem vocação para a felicidade. Eu recebi uma sentença de morte e me recusei a cumprir.”

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