Wilson Bachega Junior, entusiasta de trilhas de moto, já viu esse erro se repetir entre pilotos experientes e iniciantes: cruzar um alagado no Pantanal só pela aparência da água, sem checar a profundidade real antes de acelerar. Na época de cheia, entre dezembro e abril, esse costuma ser o erro que mais leva a quedas e panes graves no meio do trajeto, muitas vezes em trechos que o próprio piloto já havia percorrido dezenas de vezes durante a seca.
Cruzar alagados sem medir a profundidade
Poças e trechos alagados no Pantanal escondem buracos, raízes e desníveis que a superfície da água não revela. O piloto que atravessa na confiança, sem descer para checar com um bastão ou caminhar pela borda primeiro, corre o risco de encontrar um buraco bem mais fundo do que imaginava, ou uma raiz capaz de travar a roda dianteira de forma abrupta, jogando a moto de lado no meio do alagado.
Esse tipo de acidente costuma acontecer justamente com quem já conhece a região, por confiar demais na memória do trajeto seco. A cheia muda completamente a paisagem, e um caminho percorrido dezenas de vezes na estação seca pode se transformar em armadilha quando a água sobe, cobrindo referências visuais que o piloto normalmente usava para se orientar e calcular a profundidade a olho, além de esconder galhos e pedras que antes ficavam bem visíveis ao longo do percurso.
Por que esse erro é tão comum na época de cheia?
A pressa de seguir o grupo, o calor e a vontade de não perder o ritmo da trilha levam muitos pilotos a pular a checagem manual da profundidade antes de qualquer travessia. Wilson Bachega Junior observa que esse erro raramente acontece por falta de conhecimento técnico, e sim por excesso de confiança em condições que mudam de um dia para o outro conforme o nível dos rios sobe ou desce ao longo da temporada de chuvas.
Adicionalmente, a água barrenta típica do Pantanal dificulta qualquer avaliação visual, já que é praticamente impossível enxergar o fundo mesmo em poças rasas. Isso reforça a necessidade de checar fisicamente antes de atravessar, em vez de confiar apenas na aparência tranquila da superfície, que costuma esconder muito mais do que revela nesse período do ano, especialmente em trechos sombreados onde a água demora mais para baixar após uma chuva forte.
Não ajustar a pressão do pneu ao barro
Manter a mesma calibragem usada em trilha seca é outro erro recorrente na época de cheia. Terreno encharcado e barrento pede pressão mais baixa, o que aumenta a área de contato do pneu com o solo e melhora a tração em lama, evitando que a moto afunde ou derrape justamente nas subidas mais escorregadias, onde qualquer perda de tração compromete o equilíbrio do piloto e aumenta o risco de queda.

Em vista disso, Wilson Bachega Junior aponta que muitos pilotos calibram o pneu uma única vez, antes de sair de casa, e não revisam essa configuração ao longo do dia, mesmo quando o terreno muda drasticamente entre um trecho seco e um alagado. Essa negligência simples costuma custar caro justamente nos pontos mais delicados da trilha, onde qualquer perda de tração pode significar uma queda em cima de raízes ou pedras escondidas sob a lama.
Sair sem avisar rota e sem comunicação
O Pantanal tem áreas extensas sem sinal de celular, e contar apenas com o próprio grupo de trilha para qualquer emergência é um risco real, especialmente durante a cheia, quando o acesso a algumas regiões fica ainda mais restrito e a evacuação de um piloto ferido pode levar horas até chegar qualquer tipo de socorro externo à área, já que estradas de terra ficam parcialmente submersas nesse período do ano.
Não informar o roteiro e o horário previsto de retorno a alguém de fora do grupo é um erro que se repete com frequência, mesmo entre pilotos experientes que já rodaram a região dezenas de vezes ao longo dos anos. Sendo assim, levar um rádio de comunicação ou dispositivo de rastreamento via satélite reduz bastante o risco em caso de imprevisto nos trechos mais isolados, onde minutos de atraso no socorro fazem toda a diferença.
Como evitar esses erros na próxima saída?
Checar a profundidade antes de cruzar qualquer alagado, recalibrar os pneus conforme o terreno muda ao longo do percurso e avisar a rota com antecedência são ajustes simples, mas que exigem disciplina para virar hábito de verdade. Wilson Bachega Junior considera que a maior parte dos acidentes graves em trilha no Pantanal poderia ser evitada com esses três cuidados básicos, seguidos com constância, e não só nas primeiras saídas da temporada de chuvas.
Vale ainda observar o nível dos rios antes de definir o roteiro do dia, já que informações atualizadas sobre a cheia costumam circular entre grupos locais de trilheiros na própria região. Consultar essas fontes antes de sair ajuda a evitar trechos que já viraram intransponíveis naquele dia específico, poupando tempo, combustível e, principalmente, risco desnecessário ao grupo inteiro que segue o mesmo trajeto planejado com antecedência.
