Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, atua em uma área em que o acesso à saúde não pode ser medido apenas pela existência de um serviço. Para populações vulneráveis, distância, transporte, renda, falta de informação, dificuldades digitais e horários incompatíveis podem transformar um atendimento aparentemente disponível em algo praticamente inacessível.
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O que significa ter acesso de verdade?
A presença de uma unidade de saúde em determinada região não garante, por si só, que seus moradores consigam utilizá-la. É preciso considerar o caminho até o serviço, os custos envolvidos, a possibilidade de faltar ao trabalho, a disponibilidade de transporte e até a facilidade para compreender orientações e documentos. Também podem existir dificuldades relacionadas à mobilidade, à conectividade e à necessidade de acompanhamento por outra pessoa, fatores que tornam o acesso mais complexo para alguns grupos.
Para pessoas em situação de vulnerabilidade, esses obstáculos podem aparecer simultaneamente. Uma consulta gratuita pode continuar distante para quem não consegue pagar a passagem. Um serviço disponível pode não atender adequadamente quem precisa de apoio para compreender o processo de agendamento. O problema, portanto, não está apenas na oferta, mas nas condições necessárias para utilizá-la. Quando diferentes barreiras se acumulam, até procedimentos considerados simples podem exigir tempo, recursos e apoio que nem sempre estão disponíveis para quem precisa do atendimento.
Como avalia o Doutor Yuri Silva Portela, essa diferença ajuda a explicar por que alguns grupos acabam chegando aos serviços somente quando a situação já se agravou. Quando a prevenção exige tempo, deslocamento e organização que a pessoa não consegue garantir, o atendimento tende a acontecer de forma tardia. Ampliar o acesso significa justamente reduzir essas barreiras antes que elas produzam consequências maiores.
Quem encontra mais obstáculos no caminho?
As dificuldades não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Idosos que vivem sozinhos, moradores de regiões afastadas, pessoas com mobilidade reduzida e famílias com poucos recursos podem enfrentar obstáculos adicionais para marcar consultas, realizar exames ou manter acompanhamentos frequentes. Em algumas situações, essas limitações fazem com que consultas sejam adiadas, exames deixem de ser realizados ou tratamentos sejam interrompidos antes do período necessário.

Conforme ressalta o Doutor Yuri Silva Portela, também existe uma barreira menos visível: a falta de informação. Não saber onde buscar determinado atendimento, quais documentos são necessários ou quando retornar ao serviço pode interromper um processo que deveria ser contínuo. Em muitos casos, a pessoa não abandona o cuidado por falta de interesse, mas porque não consegue compreender ou acompanhar todas as etapas.
Por que exigir demais pode afastar quem precisa? Veja com o Doutor Yuri Silva Portela
Sistemas de atendimento podem criar barreiras sem que essa seja a intenção. Excesso de etapas para agendamento, canais exclusivamente digitais, horários restritos, linguagem técnica e exigências documentais difíceis de cumprir são exemplos de situações que podem afastar parte da população. Quando esses procedimentos não consideram diferentes condições de acesso, pessoas com menor familiaridade digital, limitações de mobilidade ou pouca disponibilidade de tempo podem encontrar dificuldades adicionais para chegar ao atendimento.
Para quem possui acesso constante à internet, transporte próprio e tempo disponível, resolver essas tarefas pode parecer simples. Para uma pessoa em condição vulnerável, porém, cada etapa adicional representa mais uma possibilidade de interromper o processo. Quanto maior a complexidade, maior o risco de que o atendimento seja abandonado antes de acontecer. Uma exigência aparentemente pequena pode se tornar decisiva quando se soma a outros obstáculos, como distância, custos de deslocamento ou necessidade de contar com a ajuda de terceiros.
A consequência pode aparecer em diferentes momentos, comenta o Doutor Yuri Silva Portela. Um exame que não é realizado atrasa uma investigação. Uma consulta perdida interrompe um acompanhamento. Uma orientação que não foi compreendida pode comprometer a continuidade do cuidado. Por isso, avaliar a acessibilidade de um serviço também significa observar quantas dificuldades são colocadas entre a pessoa e o atendimento.
