Poucos suplementos ocupam um lugar tão consolidado no imaginário popular quanto o ômega-3, frequentemente apresentado como proteção quase automática contra doenças cardiovasculares. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e fundador do Método LP, reflete que a realidade científica por trás desse suplemento é mais complexa do que o consenso popular sugere, e que entender essa complexidade evita tanto expectativas exageradas quanto o descarte precipitado de um nutriente que ainda tem papel relevante em contextos específicos.
Uma meta-análise em rede publicada em 2024, reunindo diversos estudos sobre suplementação de ômega-3 e desfechos cardiovasculares, encontrou resultados heterogêneos conforme o desfecho analisado, com benefícios mais consistentes para determinados eventos específicos do que para outros. Diante desse panorama, o debate científico sobre a eficácia real do ômega-3 continua ativo, longe do consenso simplificado frequentemente reproduzido fora dos círculos acadêmicos.
Por que diferentes estudos chegam a conclusões tão distintas sobre o mesmo suplemento?
Parte dessa divergência decorre da distinção entre os dois principais ácidos graxos que compõem o ômega-3 marinho, o EPA e o DHA, que parecem exercer efeitos biológicos distintos sobre o sistema cardiovascular. Estudos recentes, incluindo um ensaio clínico japonês publicado em 2024, mostraram benefício específico do EPA isolado quando combinado a estatinas na prevenção secundária de eventos cardiovasculares, sugerindo que formulações compostas apenas por EPA podem ter vantagem sobre combinações tradicionais de EPA mais DHA.
Tal como aponta Lucas Peralles, essa distinção costuma passar despercebida por quem compra qualquer cápsula de ômega-3 no mercado, presumindo equivalência entre produtos que, na prática, têm proporções muito diferentes entre esses dois ácidos graxos. Ou seja, essa é justamente a razão pela qual a recomendação de suplementação, quando indicada durante o acompanhamento na Clínica Peralles, sempre especifica a composição desejada, e não apenas a categoria genérica do suplemento.
O ômega-3 realmente reduz eventos cardiovasculares graves como infarto e AVC?
Uma meta-análise recente, avaliando especificamente revascularização coronariana e outros eventos cardiovasculares, encontrou redução de risco associada à suplementação de ômega-3 em determinados desfechos, mas com resultados menos consistentes para outros, como AVC isolado. Já uma análise de randomização mendeliana, envolvendo centenas de milhares de participantes do UK Biobank, não encontrou suporte para a suplementação de ácidos graxos insaturados especificamente como estratégia de prevenção cardiovascular primária, embora tenha identificado possíveis benefícios do DHA e do ômega-3 circulante para outras condições, como cálculos biliares e obesidade.

Esse tipo de resultado contraditório entre diferentes desenhos de estudo, segundo Lucas Peralles, é exatamente o que caracteriza uma área científica ainda em maturação, e não motivo para descartar completamente o nutriente. Nesse sentido, o mais sensato é reconhecer que o benefício cardiovascular do ômega-3 parece depender de fatores como dose utilizada, formulação específica, perfil de risco do paciente e se o objetivo é prevenção primária ou secundária, nuances sempre consideradas antes de qualquer recomendação feita na Clínica Peralles.
Em quais pacientes o ômega-3 parece trazer benefício mais consistente?
Estudos com pacientes diabéticos mostraram redução de risco cardiovascular associada à suplementação de ômega-3 nessa população específica, sugerindo que o contexto metabólico do paciente pode influenciar diretamente a magnitude do benefício observado. Além disso, Lucas Peralles alude que as revisões mostram efeitos consistentes de redução de triglicerídeos entre pacientes com perfil lipídico alterado, um benefício menos contestado do que os efeitos sobre eventos cardiovasculares maiores.
Essa constatação evidencia que o ômega-3 provavelmente não funciona como proteção cardiovascular universal para qualquer pessoa, mas como ferramenta com maior potencial de benefício em perfis metabólicos específicos, como pacientes com triglicerídeos elevados ou diabetes já estabelecido. Dentro da Clínica Peralles, a indicação de suplementação de ômega-3 é sempre precedida de avaliação do perfil lipídico completo do paciente, evitando recomendações genéricas desconectadas do quadro metabólico individual.
Como equilibrar entusiasmo e ceticismo científico em relação a esse suplemento?
Reconhecer que a ciência sobre ômega-3 ainda está em construção ajuda a adotar uma postura equilibrada, nem descartando completamente seu uso, nem tratando-o como solução universal e infalível para qualquer risco cardiovascular. Priorizar fontes alimentares naturais, como peixes de água fria, continua sendo uma recomendação sólida, enquanto a suplementação isolada em altas doses deveria ser reservada para contextos clínicos específicos, orientados por avaliação profissional.
Ou seja, Lucas Peralles reforça que acompanhar de perto essa literatura em constante atualização é parte do compromisso de oferecer orientação nutricional genuinamente baseada em evidência, e não em consensos populares desatualizados.
